Tematizações e descrições de fenômenos não são defesas. Ironias não são apologias.

Quando descrevemos ou tematizamos um assunto ou fenômeno, não significa que os consideremos positivos. Muitas vezes, trata-se justamente do contrário, como é o caso dos pessimistas, cínicos, niilistas, e em grande parte, mas com menos acidez e intensidade, dos céticos.

Muitos autores em tempos diferentes (modernos, contemporâneos, atemporais) foram mal interpretados pela confusão de se tirar conclusões apressadas. O raciocínio imediato pode levar à má interpretação de sutilezas ou da tematização de assuntos delicados, confundindo a discussão do assunto com defesa da temática.

Sem querer defender Maquiavel, e apenas usando seu exemplo, podemos verificar várias situações nas quais a má interpretação e a pressa em tirar conclusões podem distorcer uma lógica de pensamento (e na maioria dos casos relativos a este autor, de forma intencional, como fizeram o Vaticano e vários monarcas absolutistas como Henrique VIII). O fato de Maquiavel tematizar as gravitações negativas do poder não significa que ele estivesse defendendo que as pessoas se transformassem nestas gravitações negativas. Maquiavel postulava que, onde há poder, há também os piores sentimentos humanos (como vaidade, crueldade, adulação, interesses mesquinhos, personalismo, auotengrandecimento, apego a bens materiais, disputas etc), mas isto não significa necessariamente que estivesse defendendo que as pessoas se tornassem péssimos exemplares de seres humanos. Tratava-se de uma contatação, segundo ele invariável, da realidade humana. Assim, em um primeiro momento Maquiavel estava alertando para o fato que, se alguém almeja o poder, mesmo com intenções de realizar o bem comum, este alguém precisa ter consciência da inevitabilidade de suas péssimas gravitações. Neste ponto, Maquiavel não estava fazendo apologias, e sim descrevendo o que considerava uma realidade inexorável. Contudo, acabou se tornando autor maldito, entre outros motivos, por causa da má interpretação, ou da interpretação apressada, de seu pensamento.

Outro autor moderno que muitas vezes pode ser mal interpretado, porque intencionalmente escolheu um recurso ambíguo para apresentar suas ideias sobre tipos ideais e reais de sociedade é Thomas More em A Utopia. Sem adentrar os detalhes da obra, o fato de descrever um lugar imaginário que não existia de forma literal em sua época não significa que More acreditasse que um dia uma sociedade como a de Utopia pudesse existir. Provavelmente, ele tendia a acreditar no contrário, ou seja, uma sociedade com aquela configuração talvez jamais fosse possível, dada a tendência à dificuldade que a maior parte dos seres humanos tem de cultivar a virtude que leva à nobreza de alma, segundo este autor. Não que ele não considerasse uma sociedade igualitária e virtuosa desejável, mas provavelmente, More não acreditava que seu modelo imaginário fosse passível de concretização. Apesar disto, muitos consideram More um ideólogo do comunismo econômico, o que pode ser bastante controverso.

Contemporaneamente, tendemos a valorizar o raciocínio crítico a priori, em detrimento de um olhar vazio inicial, que seja, na medida do possível, sem julgamentos apriorísticos diante dos fenômenos, para só posteriormente tirarmos conclusões sobre uma obra escrita, gráfica ou simbólica. Sem perceber, tal postura nos torna, no fundo, autoritários. Não se trata de exigir neutralidade valorativa e tampouco de boa vontade com qualquer coisa, mas apenas de tentarmos nos desarmar um pouco nos primeiros momentos de contato com algo novo, seja um discurso, uma obra de arte, um texto, ou um símbolo, antes de tirarmos conclusões respaldadas em nossas próprias crenças e valores, e não na realidade e nas novidades do outro, externo a nós, que se apresentam.

Texto de Paola Novaes Ramos, tutora do PET/POL.

REFERÊNCIAS

LAPERRIÉRRE, Anne. “A Teorização Enraizada (grounded theory): procedimento analítico e comparação com outras abordagens similares”, in POUPARD, Jean (org.) A pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, Editora Vozes, 2008.

RUIZ, Don Miguel. Os Quatro Compromissos:o livro da filosofia tolteca (um guia prático para liberdade pessoal), Edição Revista, 1997.

O Espetáculo da Vingança

- Justiça é uma beleza, nos olhos de quem a vê.

Assim diz Emily, cujo nome verdadeiro é Amanda Clarke, protagonista do seriado norte-americano “Revenge” criado em novembro de 2011. A história da série narra casos de vingança, baseados na obra francesa, de 1844, “O Conde Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Nela, a jovem Emily busca vingança pelas injustiças sofridas por seu pai quando ela era criança, que causaram a destruição de sua família. O sucesso da nova série é notável, já que conta com fãs no mundo todo, apesar de ainda ser relativamente recente.

Assim como “Revenge”, várias outras obras da televisão, do cinema e da literatura tratam do tema vingança, fator que, na maior parte das vezes, as torma atraentes e de sucesso. Se fizermos uma análise da representação do fenômeno da vingança no tempo, percebe-se que, conforme o período histórico, as características vingativas são apresentadas de maneiras peculiares. Na tragédia grega, por exemplo, a vingança predominava contra a própria família, como é o caso extremo de Medéia, que matou seus filhos para se vingar de uma traição.

No teatro inglês dos séculos XVI e XVII, havia um gênero denominado “peças de vingança””, de cunho romântico, como em Hamlet, de Thomas Kyd e difundido pela versão de Shakespeare. Com maior dinamismo da sociedade, a vingança incorpora a variável de ressentimento social e de condição econômica. Em muitas histórias, ficar rico representa uma forma louvável de se vingar.[1]

Ao observar a existência de inúmeros exemplos de expressões artísticas que abordam o tema da vingança, chama-me atenção o caráter de espetáculo que esse fenômeno apresenta. As/os espectadoras/as se deliciam com as atitudes vingativas das/os intérpretes, ainda que sejam bastante violentas. É como se o fato de se vingar garantisse uma permissividade e uma maior legitimidade a formas de violência que são normalmente consideradas inaceitáveis.

A concepção de vingança sempre está vinculada à ideia de busca por justiça. Ao se vingar, a pessoa retribui uma ação que a prejudicou em busca de um equilíbrio social, ainda que esse seja medido de forma bastante subjetiva e passional. Assim, a reciprocidade fica evidente na questão da vingança, baseada, acima de tudo, na ideia de honra pessoal.

Partindo dessa abordagem, pode-se identificar pontos se convergência entre a vingança e a questão da dádiva apresentada por Mauss em sua obra O ensaio sobre a dádiva², leitura da reunião acadêmica do PET da semana passada. De forma extremamente resumida, Mauss considera a obrigação de retribuir ações benevolentes um fato social, ou seja, uma característica universal das organizações sociais, sejam elas tradicionais ou modernas.

Ao interpretar a obra, observa-se uma possível relação entre retribuição e justiça, sendo esta  vista como um equilíbrio de relações. O que é retribuído, nesse caso, é, ao mesmo tempo, feito de forma voluntária e obrigatória, interessada e desinteressada, como se fizesse parte de um acordo tácito para a manutenção de certa ordem “harmônica” social. Está implícita, então, uma vontade de se manter vínculo com tal ordem, base para sua legitimidade.

O ponto em comum entre dádiva e vingança se restringe à relação retribuição e justiça, presente na teoria de Mauss, sendo os incentivos e as intenções de se retribuir exatamente opostas. Enquanto a vingança é estimulada por uma atitude prejudicial, a retribuição à dádiva se dá em razão de uma oferta de algo considerado benéfico pelo ofertante. No caso de uma ação vingativa, a intenção não é necessariamente a de manutenção de vínculo, a não ser que de subordinação, mas sim de rompimento dele.

No caso da dádiva de Mauss, se a retribuição supera a ação recebida, a relação social estabelecida não é afetada negativamente, podendo essa retribuição crescente ser até natural nas trocas de presentes. Porém, a linha entre vingança e justiça é muito mais tênue. Ações vingativas são facilmente consideradas excessivas e, portanto, injustas. Por isso, diversos padrões são estabelecidos para que o círculo vicioso da vingança não ameace a ordem estabelecida, como é o caso do próprio sistema jurídico e as concepções morais (por exemplo, a concepção religiosa do perdão e da justiça divina).

O direito pode ser visto, assim, como uma padronização legítima dos meios de vingança, para que o equilíbrio da justiça possa ser garantido.  Acredito que, por isso, o ato vingativo não deve ser encaixado em parâmetros morais, como certo e errado, mas como aceito socialmente ou não. Assim, diferente da obrigatoriedade da retribuição da dádiva, a vingança não é obrigatória, mas sua permissividade (também entendida como aceitação ou não julgamento) varia conforme o contexto em que ocorre.

Mais que os conceitos até agora discutidos – principalmente o de vingança e o de justiça – a permissividade apresenta caráter essencialmente subjetivo. Caso se considere que instituições são falhas na garantia do que se entende por justiça, a vingança individual tende a ser cada vez mais aceita. Ou ainda, quando certa ordem social opressora nos é sensível, a vingança por parte do oprimido pode representar uma forma de contestação da ordem vigente.

É por esse motivo que expressões artísticas que tematizam a vingança chamam atenção de tantas pessoas. Os motivos pelos quais a exposição da vingança pode se tornar atrativa são inúmeros, dentre eles estão a compaixão, a identificação com o vingador, a catarse ou até mesmo a revolta. A justiça feita pelas próprias mãos dos intérpretes que assistimos muitas vezes representa uma luta pela justiça que gostaríamos que fosse aplicada a todo sistema, uma mudança mais ampla, e que não poderia ser realizada por uma simples ação egoísta que, acima de tudo, é violenta.

Peço desculpas pela falta de embasamento teórico de meus argumentos, justificável pelo fato desse texto ser resultado de uma reflexão inicial e básica sobre o fenômeno da vingança, que me interessa há tempos, mas que precisou do incentivo da discussão acadêmica semanal de Mauss para tomar corpo.

Texto da petiana Ariadne Santiago.

[1] TEIXEIRA, Jerônimo. A justiça selvagem.Veja: Seção Livros. Edição 209, 728 de janeiro de 2009.

[2] MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Partes 1, 2 e 3.

Cursum Perficio

“(…)ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.”

(Chico Anísio)

X já havia morrido várias vezes. Não da forma como estamos acostumados a ver acontecendo diariamente, na qual a vida se vai sem podermos tê-la mais de volta. Morrera tal como muitas pessoas vão e vem todos os dias. Em um dia aparentemente bom e tranquilo, não conseguia mais dormir nem ao menos relaxar e, pronto, via-se em crise. Chorava, tremia, se escondia.

X já tivera muitas dessas mortes. Quando menos esperava, depois de um bom tempo sem senti-las por perto, quando tudo estava superficialmente esplêndido, X caía. Era mais uma morte que lhe batia a porta. Durava alguns dias, até que novamente percebesse, depois de um tempo já cara a cara com o mesmo processo, que não poderia se deixar levar por ela. Era preciso renascer.

Morrer, do modo como muitas vezes ocorrera com X não era nada fácil. Esse ir e vir, esse sobe e desce de uma montanha russa de grandes declives e poucas subidas era algo constante em sua vida, o que, ao contrário do que se pode deduzir, não deixava as coisas mais fáceis. Em cada nova crise/morte  que tinha, novas eram as dores, novas eram as sensações, apesar de parecer, segundo seu ponto de vista, que as conhecia de antemão e que, de alguma forma, queria aquilo para si. Como assim, querer morrer?

Volta ou outra, X pensava em como poderia aliviar seu sofrimento, diminuindo-o, talvez, por alguma dor que pudesse, ainda que por pouco tempo, fazê-lo esquecer dos dias que lhe pareciam tão obscuros. Imaginava também, de forma até frequente, como as multidões poderiam pagar pelo seu martírio diário e pelas constantes mortes que passara: seria tão fácil, falava para si, matar alguns em uma festa do alto clero e, afinal, no seu íntimo, era disso de que a sociedade precisava. Curar-se. Havia muitos problemas nela e ele, vítima direta deles, poderia curá-la. “O mundo precisa mais de pessoas como eu, sem medo e prontas para o desafio”, sempre repetia consigo.

X alternava momentos de impotência e de “poder absoluto”. Como resposta às inescapáveis mortes que lhe acompanhavam em intervalos curtos de tempo, respondia com agressividade a si próprio e a quem estivesse a seu lado, nem que isso se resumisse aos seus pensamentos homicidas e um tanto quanto violentos. É claro, X não gostava de “morrer” e precisava que todos sentissem o mesmo que ele, precisava que as pessoas experimentassem a sensação da derrota e do auto-desprezo como ele sempre houvera experimentado. O seu sofrimento deveria ser também o dos outros. Só assim ele poderia cumprir a sua missão, que desde pequeno imaginava ter, de resguardar o amor pela vida.

Não se revelar por nada nem a ninguém sempre fora o maior objetivo durante o tempo em que viveu. Temia que pudessem usá-lo contra si mesmo, aproveitando-se de suas fraquezas para derrubá-lo com crueldade, pisando-lhe como se não importasse para o mundo. Por vezes, até chegava a se abrir um pouco mais, sabendo, no entanto, que o que falava para os outros sobre ele mesmo era muito pouco do que realmente podia contar. O tom de mistério que X adotou, no entanto, acabou ironicamente para ele sendo seu maior (in)fortúnio. Como desprezava a ideia de compartilhar algo sobre sua vida, X se esqueceu de que não poderia viver sozinho, e que mesmo que o fizesse, não poderia fazê-lo sem alguém – ainda que somente em sua imaginação.

X cansou-se de morrer com tanta frequência. Muitas vezes havia pensado em desistir da vida, mas nunca com tanto ímpeto quanto na última vez que cogitou fazê-lo. Diante de uma nova crise vinda aparentemente sem motivo algum, X decidiu se matar. Planejou sua queda para que ela terminasse gloriosamente. Não poderia morrer sem que isso fosse também tanto um ritual de auto-sacrifício quanto de purificação da humanidade, ou daquilo que ele projetava nela.

Como primeiro passo, X deixou de tomar os vários comprimidos que ingeria todos os dias. O efeito imediato foi praticamente inexistente, talvez até pelo ânimo que obtinha da expectativa de concretização do seu propósito de vida. Com o tempo, passou a ver as coisas de um modo totalmente diferente do que vira nos seus últimos anos, o que, entretanto, não foi suficiente para forçá-lo a desistir da morte.

X pensou em múltiplas maneiras pelas quais poderia morrer. Se chegou a cogitar dar um tiro em sua cabeça ou no próprio peito, foi por pouco tempo. Isso parecia a ele muito banal. Pensou em se afogar, em se incendiar e em se jogar de uma ponte qualquer. Tudo isso continuava sendo comum. À X não incomodava a aparente banalidade do método pelo qual iria se matar, mas tão-somente lhe era negativo a simplicidade que um ou outro lhe oferecia. Acabou por se decidir pelo enforcamento. Não um simples, é claro, afinal, nada poderia sê-lo em sua vida. Faria isso em uma praça, a mais movimentada que encontrasse, tal como no passado eram enforcadas as vítimas da Inquisição. Sua morte serviria não só para curá-lo da sociedade, mas também para curá-la de suas próprias falhas. Ao enforcar-se publicamente, X daria a todos um recado de que fazia aquilo por eles, para salvá-los de seus erros, de suas omissões.

Arrumou uma corda grossa em um terreno abandonado, vestiu jeans e camisa pretas e se manteve descalço. Na praça cuidadosamente escolhida, X subiu em uma árvore (foi inevitável para ele se lembrar do quanto fazia isso no sítio de seu avô quando criança) e deu um nó firme no galho que lhe pareceu mais seguro. Não se propôs a pensar em nada, uma vez que já havia feito muito isso em vida. Da escada que trouxera consigo, juntou o seu pescoço ao laço e se jogou. Foram poucos os segundos dali até a sua morte. X podia ter pensado em tudo naquele momento. Em como poderia não ter feito aquilo, em como poderia ser mais feliz dali em diante, em como poderia viver sem sofrer. X não pensou em nada disso. Morreu e nada mais sentiu. Morreu e deu um fim ao seu caminho.

Um texto do petiano Vinicius Januzzi.

A Construção do Indivíduo – uma análise que nasceu devido a influências musicais

Ao nascer, cada indivíduo consiste de uma parte importante de um todo. Sua individualidade, em contraste com os demais, ganha espaço, relacionada com suas preferências e atitudes. Não tem como negar a influencia daqueles que estão perto de você no seu desenvolvimento – uma criança é uma esponja, moldada a partir do que os adultos fazem. A superproteção da parte de alguns pais pode acabar virando uma verdadeira barreira – algumas crianças vão encontrar uma maior dificuldade para ultrapassar esse limite que foi criado por seus genitores. Cabe a cada indivíduo saber os limites que essa barreira terá em sua vida.

Traumas existem e não vão deixar de existir. Às vezes a mais simples atitude de um adulto, como, por exemplo, ignorar a criança para continuar seu trabalho, pode parecer irrelevante, mas para uma criança aquilo significa um universo de fatores. São as diversas maneiras de interpretar a realidade, conectadas com fatores inexplicáveis. Medos podem surgir simplesmente porque nenhuma luz foi deixada acesa ao longo da noite. Complexos de inferioridade podem ser gerados a partir das mais simples brincadeiras de criança. Os pequenos não tem vergonha de dizer a verdade – sempre dizem o que pensam – e isso muitas vezes pode ser doloroso até mesmo para alguém mais velho. Toda essa suscetibilidade está relacionada com o caráter da pessoa de enfrentar esses fatores (pois eles sempre irão existir).

Segundo aquela frase cantada pelo Michael Stipe da banda REM, “Everybody hurts”, tudo mundo pode ferir, relacionamentos sempre existirão e da mesma forma a chance de se ferir. O que vai variar é a suscetibilidade individual. Tudo depende de como a pessoa encara a realidade, e se ela se deixa magoar pelos mais simples detalhes. Relacionamentos são complicados, algumas pessoas, por exemplo, não tem o tato suficiente para ver que certas brincadeiras não foram feitas para ser feitas.

Quando vejo o filme The Wall consigo entender porque o personagem principal, Pinky deseja se excluir dos demais. O filme da banda Pink Floyd é incrivelmente rico de significados, principalmente os que eu pretendo compartilhar. Os personagens como o professor, a mãe, o pai e a esposa são apresentados como fatores importantes para a vida de Pinky e como influenciadores da depressão em que ele se encontra. A repressão em sala de aula, como exposta na letra da música Another Brick in the Wall é tida como uma violência para com as crianças, o sarcasmo dentro da sala de aula seria como uma arma. Já na música Mother, acredito que não exista melhor frase que explica a relação mãe-filho que a “Momma’s gonna put all of her fears into you” (Mamãe irá colocar todos os medos dela em você) – ao mesmo tempo em que uma mãe busca proteger seu filho ao máximo, ela está fazendo com que ele fique frágil nos relacionamentos com os demais. O personagem do pai nunca aparece explicitamente no filme, mas sabemos que ele morreu na guerra, o que faz com que a imagem do pai vire um eterno vazio para a vida de Pinky – “Dad, what you leave behind for me??” (Pai, o que mais você deixou para trás para mim?). A esposa representa a dolorosa relação que o amor pode gerar – e acredito que a melhor cena que simboliza o que Pinky sente é a da música Empty Spaces (pois é nessa música que aparecem duas flores, que no começo se amam e que de repente começam a se destruir).

Alguns, por autoproteção ou por consideração aos demais, irão construir essa barreira que os protege de maneira que seja tão resistente que ninguém mais poderia ultrapassá-la. Esse é o ponto para que exista essa parede imaginária que tanto falam ao longo do filme. O indivíduo pode construir essa barreira tanto quanto a sociedade pode ajudá-lo a construir. Mas será que essa parede é maligna? No fundo, será que ela não representa o que há de mais pessoal dentro de nós? Seria bom destruir essa barreira? Acredito que sim, essa parede simboliza o que há de mais profundo e que construiu o que podemos chamar de nossa personalidade. Por mais que possa ter sido construído por aspectos negativos, nós somos a soma de vários fatores, tanto bons quanto ruins, que aconteceram e continuam acontecendo em nossas vidas. O que eu aponto como preocupante é a construção dessa parede a ponto de desligarmos toda e qualquer relação com o outro. O Pinky se isola a tal ponto de chegar á loucura. Não podemos viver fora da sociedade, socialização é inerente ao ser humano. Acredito que um dos desafios que enfrentamos é aprender a viver com os demais.

Texto da petiana Louize França que acha que a música (em todos seus aspectos e formas) representa uma verdadeira forma de analisar a realidade e expressar o indizível.

Cândida

‘Eu que não sabia o que era ser feliz, descobri no mundo a grandeza da minha ingratidão’. Suas últimas palavras foram sua maior realização. Não porque aquele momento fora o final de uma terrível e dolorosa doença; sua realização se deu diante da grande verdade sobre sua vida.

A descoberta

Cândida nascera em um casebre, próximo de um longo rio que circunda certa cidade do interior da França. Sua mãe morrera ao dar a luz – ou ‘dar a sombra’, como costuma sempre ironizar. Foi uma criança como outra qualquer, num lugar qualquer. Pode-se até dizer que era menos do que uma qualquer: não tinha identidade. Não pertencia a ninguém, não possuía ninguém. Como é de se notar, sua infância foi um desenvolver de uma miséria, ou era assim como Cândida pensara por toda sua vida. ‘Se você soubesse o que é o sofrimento, não iria me contrariar…’. Retrucava sempre quando um de seus amantes questionava seus hábitos. ‘…não me importo com o que pensas, se não quiseres admitir…’, e assim envolvia-se em melancolia e ódio por sua existência.

Ao completar sua maioridade, decidiu sair de sua cidade de origem. Cândida gostaria de conhecer todo o mundo. Não era uma questão de desejo pelo desconhecido. Sua ambição era, em primeiro lugar, deixar de ser alguém. Ouvira certa vez uma velha resmungando a seu respeito. ‘Se temos um lugar na Terra que pode ser chamado de inferno, é esta cidade… não há lugar mais desagradável e perturbador, mais feio e melancólico… todos os lugares por onde andei não encontrei uma única criança mais sinistra que Cândida. Sua mania de perambular pelas ruas faz dessa cidade um pesadelo… um pesadelo que já tem quase dezoito anos!’. Sua decisão fora imediata: tão logo voltou para sua moradia – debaixo de uma pequena ponte da cidade – e recolheu os seus míseros pertences; perambulou pela última vez por toda a cidade – assim esperava.

Cândida, apesar de miserável e perdida, podia ser considerada como uma pessoa de relativa inteligência. Não lera muitos livros, mas possuía grandes indagações sobre o mundo. Ao sair da cidade, pois, reconheceu necessário considerar o que estava ignorando por toda sua vida.

‘O que te faz sair em busca do nada?’, perguntou o homem que estava dirigindo o caminhão.

‘Sobre o nada… eu já o presenciei por dezoito anos. Pretendo apenas confirmar que de fato vou presenciá-lo pelo resto de minha vida’.

‘Não está sendo um pouco radical? Quero dizer, a vida é complicada! De fato! Mas por que pensas assim?’. O caminhoneiro, sem compreender, sentiu crescente um interesse por aquela estranha garota que aparecera em seu caminho. Cândida apenas permanecera em silêncio dali em diante, sem respondê-lo.

Na mesma noite, tornaram-se amantes. Cândida estava prestes a fazer seu primeiro teste. Sua primeira confirmação de que não sentiria nada. Sentiu dor, sentiu ódio. Decidiu, enfim, sair daquele lugar. Deixara somente um bilhete; transformara em lei os dizeres de seu pensamento. ‘Em resposta a sua pergunta, tudo que vivi me faz acreditar que o mundo é repleto de maldade. Não possui bondade, só uma maldade camuflada, que corrompe aqueles poucos que poderiam nascer e crescer virtuosos. Tudo que ocorre neste mundo é para o mal.’ Ao deixar o bilhete próximo ao volante do caminhão, e vislumbrando pela última vez aquele homem – era o que esperava –, sussurrara. ‘Se você soubesse o que é o sofrimento, não iria me contrariar…’. E partira.

A confirmação

Cândida viajou por toda a França. Conhecera muitos lugares e pessoas. Foi encontrar em Paris, poucos anos após deixar sua cidade, uma utilidade para seu desprezo à vida. Quando menos esperava, se viu diante de uma prova de ingresso à universidade. ‘Os tempos são propícios à Academia’, diziam os jornais. Por mais inútil que achasse ser, Cândida conseguiu finalizar seu curso com relativo sucesso. Seus estudos tornaram-se conhecidos. Fora chamada para lecionar na América.

Seus vinte próximos anos de vida, como Cândida costumava dizer, não sofreram grandes mudanças. ‘Minha vida é monótona. Sempre transmito o mesmo conteúdo aos mesmos alunos imbecis. Sempre encontro homens monótonos. Sempre tenho ódio.’ Considerava sua vida pessoal um fracasso. Sua vida profissional, uma mentira. Cândida não conseguia ver mais sentido no que estava fazendo, onde estava fazendo, com quem estava fazendo. Todo aquele sentimento, nunca descartado, porém longamente esquecido voltou à tona. Foi em certa tarde, durante um almoço supostamente rotineiro, a confirmação de sua maior verdade.

‘Você não compreende, Cândida. Está sempre ausente, e quando está presente, parece-me que estou diante da pessoa mais infeliz do mundo. Como pode acontecer isso? Tem uma carreira brilhante, tento lhe proporcionar toda a felicidade possível. Não consigo mais suportar isso. É um adeus’. Disse seu atual amante.

‘Estou grávida’.

‘Não me importo mais. Você criou toda essa situação, já sofri muito e não pretendo sofrer mais’. O amante levantou cordialmente da mesa e se retirou, para nunca mais voltar.

‘Se você soubesse o que é o sofrimento, não iria me contrariar…’. Sussurrou Cândida enquanto observava o homem a sair do restaurante.

            Apesar do aparente controle, Cândida escondia dentro de si um ódio tão grande quanto a certeza de que tudo ao seu redor acontecia para o mal. Após os monótonos vinte anos, decidira voltar para a França. E partira.

A refutação

            Cândida deu luz a gêmeos. Acreditou ser uma infelicidade, uma grande punição, ter que conviver pelo resto de sua vida com um duplo fardo. Uma dupla lembrança de que sua vida fora sempre regada por infortúnios. Como já esperava, seu retorno fora problemático. A universidade já não mais considerava recontratá-la. Recorrentes problemas em trabalhos passados, o fato de possuir dois filhos novos; tudo conspirava contra ela. A única saída encontrada por Cândida, ironicamente, foi a de retornar para sua cidade de origem. ‘Ao menos poderei me preocupar menos com vocês, e quem sabe até posso esquecê-los em algum lugar onde não lhes encontraria novamente’. Seus pequenos filhos escutavam-na sem compreender.

            Retornou então à cidade que planejara nunca retornar. Conseguiu um emprego em uma escola precária, na saída da cidade, próxima ao grande rio. Alugou um pequeno cômodo próximo à escola. Viveu ali, monotonamente, por vários anos. Em um dia como outro qualquer, entretanto, encontrou, nos arredores da cidade, o primeiro amante que planejara nunca reencontrar. Fora um choque. Um ódio; um arrependimento.

‘Agora que te reencontrei, não a deixarei fugir’, e assim tomou cuidados dos dois filhos de Cândida.

Cândida já considerava confirmada sua teoria. Agora já não mais via sentido em viver; atestara a maldade do mundo. A inutilidade da vida. Sentiu-se pesada. Adoeceu.

‘Por que, com todo o meu desprezo, você continua cuidando de meus filhos, e de mim?’, Cândida perguntava todos os dias, indignada, perturbada.

‘Vou cuidar de você’, dizia o caminhoneiro.

A doença espalhou por todo seu corpo. Cândida estava se definhando a cada dia, cada vez mais. Ironicamente, quanto mais sofria com a enfermidade, mais refletia sobre sua vida. O sofrimento que a doença lhe proporcionara relevou todo o suposto sofrimento de sua vida. Tudo que sentira por toda sua vida, tudo que a rodeara, era amor; a maldade, ela mesma. ‘Eu que não sabia o que era ser feliz, descobri no mundo a grandeza da minha ingratidão’. Suas últimas palavras foram sua maior realização. Não porque aquele momento fora o final de uma terrível e dolorosa doença; sua realização se deu diante da grande verdade sobre sua vida. E partira. Nunca mais voltou.

Daniel Vasconcelos é petiano e, por mais que pareça contraditória a vida, acredita que o sofrimento e a maldade são apenas a interpretação que todos nós, ingratos, damos a ela. A vida é bela, se não conspirarmos contra.

1933 Foi um Ano Ruim

“Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”.

1933 foi um ano ruim, é o título de um interessante livro escrito por John Fante, que descreve a história do jovem e pobre garoto, Dominic Molise, em seu processo de questionamento do mundo, tentando justificá-lo através do amor e da religião. Em seu processo de diferenciação frente à uma sociedade uniforme, tentando desesperadamente encontrar em si algum talento (que no seu caso era jogar baseball), por menor que fosse. Dominic vive essa desventura durante o ano de 1933 e aposta tudo o que tinha (vendendo a única máquina de trabalho de seu pai em segredo) para juntar alguns dólares e tentar seguir a carreira de atleta arremessador em outra cidade. O livro termina com o amigo de Molise (que, diga-se de passagem, era peça fundamental para que a empreitada desse certo) abandonando-o, seu pai sem trabalho, a máquina valendo o dobro do que se vendeu e um beco sem saída para o jovem garoto que, buscando atingir seu sonho abandonou tudo o que o prendia a uma vida normal. Que absurdo! Pode-se dizer, que não há nada mais certo que isso, a vida é mesmo um absurdo! Que é o pressuposto da reflexão de hoje. Deixando de lado a tragédia de Dominic, atentemo-nos para outro autor, a saber, Albert Camus. Trataremos hoje de sua obra “O mito de Sísifo” e o absurdo que é a vida humana. Neste livro, Camus literalmente constrói e defende esta idéia. Basicamente seu pressuposto é o de que a vida não faz sentido algum e que os homens são fúteis por buscar desesperadamente algum sentido para viver. O mundo encontra-se desprovido de Deus e da eternidade, e principalmente não possui lógica alguma, seu determinante é o caos, a desordem, a falta de justificativa. Ao contrário do que se pode pensar não são apenas loucos e filósofos que chegam a esta conclusão, na verdade, quanto mais tempo se passa buscando um sentido, menos sentido faz esta busca. Na verdade é neste absurdo que ancora-se a religião, que nada mais é que a tentativa, desesperada (sem ofensa), de evidenciar uma justificativa para essa empreitada irracional terrena. Segundo Paiva (2003), “um mundo que podemos explicar, mesmo por viés das más razões, é suportável, mas num mundo privado de justificação o homem é estrangeiro, privado da esperança, condenado ao sofrimento” (p. 159). Bem, antes de tudo, até mesmo deste pressuposto, descrevamos a história trágica de Sísifo. Segundo nos conta Homero (2002), Sísifo foi um sagaz ser humano cuja trajetória em vida resumiu-se ao questionamento divino. Em sua experiência terrena, foi capaz de enganar pelo menos 3 divindades diversas. Primeiro enganou à Asopo exigindo água para sua cidade em troca de informações falsas sobre o rapto da filha do deus em questão, em seguida foi capaz de enganar a morte aprisionando-a em um colar, é claro que os deuses em função do aprisonamento da morte resolveram tomar a vida de Sísifo que, antes de morrer disse à sua mulher que não o enterrasse e jogasse seu corpo em praça pública. Ao acordar no Hades, Sísifo convence Hades a deixá-lo retornar para se vingar do desprezo de sua mulher, o deus do mundo inferior permite e assim que este volta a ver o mundo dos vivos, foge desesperadamente para longe da morte, assim conseguiu viver até idade anciã quando já encontrava-se preparado para morrer. Mas ao contrário de suas intenções Zeus não lhe deu a morte, antes, aplicou-lhe um castigo, deveria Sísifo carregar uma pedra gigantesca nas suas costas até o topo de uma montanha bem alta. Ao chegar no topo, a pedra rolaria até o pé da montanha e Sísifo teria de recomeçar este trabalho por toda a eternidade. E o que isso tem a ver com Camus? Bem, Camus vê em Sísifo nada mais nada menos que o héroi do absurdo, aquele indíviduo que reconhece a irracionalidade de sua sina, de sua vida, não obstante, continua executando sua tarefa diária. Contudo, não antecipemos as conclusões sem dizer antes outros dados de importância absurda! O primeiro questionamento trazido na obra de Camus é o seguinte, se a vida é um absurdo e a constatação da burrice e da estupidez de viver é mais comum do que se imagina porque o suicídio não é regra e sim exceção? Como um homem que constata o absurdo da vida pode continuar a viver? Para Camus, constatar o absurdo da vida não exige a anulação desta, antes exige revolta para com a mesma. O que isso quer dizer? Primeiro atentemo-nos para o que é exatamente absurdo. Não é nem o mundo nem o pensamento humano, o absurdo surge antes do esforço e da necessidade humana de entender um mundo que é incompreensível, o que se objetiva é mostrar impossível a redução da complexidade do mundo a um princípio racional, razoável e explicável. Para Camus, este é o momento da consciência adquirida. Cada um de nós deve, em algum momento, vislumbrar o conhecimento e chegar à conclusão de que não importa quão duro se trabalhe, estamos fadados a falhar no sentido de que mais cedo ou mais tarde morreremos sem compreendê-lo inteiramente. Logo, o absurdo não nasce do mundo per si ou do homem per si, mas da relação dos dois, suicidar-se seria anular uma das partes, anulando o absurdo, o que é absurdo, pois em uma lógica relacional, anular uma das partes (necessárias), é anular o todo (suficiente), anulando por sua vez o mundo e o resto da humanidade. “O absurdo depende tanto do homem como do mundo” (Camus, 1989 p 40). Em outras palavras, o não ser não pode ser, ou seja, suicidar-se e tornar-se o que não é, não é tornar-se feliz, porque isso seria ser, antes é tornar-se nada reduzindo tudo a este mesmo nada, o mundo, a humanidade e o absurdo, simplesmente as coisas não são, para aquele que não é. Para os que não se convenceram do absurdo da vida, menciono que Camus o procura demonstrar, através de uma lógica e três analogias, respectivamente, da tentativa do homem de justificar a vida e dar um sentido a ela sobre o amparo da esperança, dos planos, da vida após a morte, enfim. O fato é que quanto mais se espera o amanhã, mais próximos estamos da morte que é o não ser e isso torna a esperança uma lógica absurda. As analogias são respectivamente, a de Don Juan, que desesperadamente busca o amor e a beleza em tudo (o que é um absurdo), a do ator, que representa, em apenas duas horas de palco, uma vida, uma história inteira o que escancaria sua efêmeridade tornando um absurdo viver (visto que a morte é evidente), e a do guerreiro conquistador, que se vê convicto na glória, na eternidade, na imortalidade de seus feitos, (pensemos que tudo o que realizamos na vida não é tentar deixar algo para a posteridade?) o que é absurdo porque vivendo o que está por vir deixa-se de viver o que é real. Se ainda não foi possível se convencer do absurdo da vida (que é tentar dar a ela uma razão, uma lógica, uma justificativa), sugiro a leitura da obra, se não resolver, sugiro uma boa dose de reflexão existencial ao assistir o programa Fausto Silva num domingo bucólico e entristecido, ou a leitura do mundo como vontade e representação de Arthur Schoppenhauer. Enfim, já que a vida é o absurdo e o suicídio não resolve o problema do absurdo, (o suicídio erradica a consciência do absurdo sem deslindá-lo, e aqui é importante lembrar que o olhar de Camus ao suicida não é sociológico e estrutural, ao contrário, é individual. “Começar a pensar é começar a ser minado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos”, Camus, 1989, p.40), o que devemos fazer, por Deus!? Camus nos responde com um raciocínio fino e extremamente complexo, a saber, devemos fazer o óbvio: aceitar o absurdo. Contudo essa aceitação possui, pelo menos, duas consequências: a liberdade e a revolta. Sobre a 1a, não nos diz Camus sobre a liberdade em si, metafísica, mas a liberdade inerente a condição humana, aquela referente à ação do espírito, que é maximizada com o reconhecimento do absurdo. Ou seja, constatar que a vida não possui sentido, é estarmos livres da desesperada, dolorosa e terrívelmente satânica busca pelo sentido. O homem absurdo goza da liberdade no que se refere às regras comuns. Ah, meu saudoso Sr. Mersault, que ao matar um árabe é condenado à morte. Nada faz sentido para este rapaz, sua vida não é explicada por nenhuma fé, religião, ideologia, ciência, não tem nada em que se amparar. É na verdade o sr. Mersault um condenado? Eu prefiro vê-lo como livre, pode se fazer a si mesmo, sua vida não ancora-se nas leis que o obrigam a cumprir, no poder delegado a poucos, na desigualdade, na lógica intelectual, na moral, na verdade, nas exigências do Sr. Capital, porque tudo isto é baseado na justificação, logo tudo é uma fuga falha ao absurdo. Ao descobrir que a percepção do absurdo implica na liberdade absoluta, encontra paz (algo muito difícil de se encontrar). Tudo é permitido para aquela liberdade anárquica metafísica de Camus, “O que conta não é a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem”. Pensemos na vida moderna, trabalhadores em empregos fúteis e fábricas de escritórios, presos aos grilhões maléficos já citados, são como Sísifo sim, pois acordam todo dia às 6 para escalar a montanha, porém apenas aquele Sísifo é capaz de se aproximar de algo entendido como liberdade. Aquela interna, anárquica, que pauta solidamente certas correntes do pensamento político. Ele e somente ele pode determinar a essência da existência. Sobre a questão da revolta, é mister dizer que esta revolta não se concentra na raiva, na luta, na agressividade, no combate e no conflito, antes, é uma revolta porque se dá justamente no fato de que se a vida não tem sentido, só poderá ser vivida em sua absurdidade, sua tragicidade, e não anulada. Se revoltar contra essa lógica ilógica é torná-la certa, absoluta e grandiosa. Se revoltar não é desenhar estratégias de batalha que tem por objetivo manter a vida custe o que custar, “inversamente o absurdo da existência tem como correlato a opção pela alegria, felicidade e afirmação da vida” (Paiva, 2003, p. 163). A revolta de Sísifo se dá justamente em continuar carregando o pedregulho! E ainda mais! Em carregá-lo alegremente! A aceitação não é passividade, é a revolta da revolução permanente interna à alma de cada ser humano. “A vida será vivida melhor ainda, se não tiver sentido. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-la plenamente” (Camus, 1989,p.70). Por isso Sísifo é um herói, e por isso continua escalando a montanha, não vive sua vida da melhor forma, mas da forma mais intensa, procura sua realização em cada passo em cada coisa, vive intensamente cada respiração, não é uma questão de viver perfeitamente, e sim de viver mais! “Sísifo não veicula nenhuma esperança, mesmo assim, é feliz. Não porque ele tenha se resignado, mas exatamente por ter suas esperanças hauridas. Ao ser perpassado pela dor do absurdo, ele cresce em disponibilidade e pode investir no presente com toda a radicalidade que a atitude solicita” (Paiva, p.168). Sísifo pode constatar o quão terrível é seu destino (de carregar o rochedo gigante todos os dias), mas apesar de horrível, seu destino lhe pertence de forma inteira. Seu rochedo é a sua questão. Ao contemplar o tormento, fazemos calar todos os ídolos. Afinal, a felicidade é irmã do absurdo! Pensemos em Cervantes, dentre todas as mensagens contidas em Dom Quixote, talvez uma das mais relevantes seja o argumento de que ao considerarem-no louco, não era de fato desequilibrado, antes, o resto do mundo é que encontrava-se errado. E é justamente essa revolta que torna possível a primeira consequência, a liberdade, “assumir a absurdidade do mundo e optar pela vida instaura o propósito de viver o máximo possível, atingir o limite de uma existência limitada, o homem absurdo não canaliza suas energias para o eterno ou para o nada, mas para o possível” (Paiva,p.168). Se para Sócrates a vida só vale a pena pela reflexão, para Camus a vida só tem valor se esclarecida acerca de sua absurdidade. Com a revolta e a liberdade vemos que a saída para um possível drama humano se faz, não no sofrimento, mas na grandeza do inexorável percurso para a morte. Então o que dizer sobre o pobre garoto Molise, se não que é uma vítima da própria covardia humana, da estrutura e do horror individual de admitir o absurdo? Comete Dominic todos os erros possíveis, atendo-se ao amanhã (fazendo planos para se tornar um famoso jogador), justifica sua existência pelo seu talento, pelo seu amor por uma garota, pela sua crença em Deus e na Virgem Maria, nega o absurdo da escola, do estudo, do trabalho de pedreiro que seu pai deseja que siga, nega por medo, e ao viver sua vida mental, metafísica e ideal desperdiça qualquer possibilidade de real mudança de sua condição. Para terminar, não quis dizer aqui que, como Sísifo, a condição humana é irrevogável, não transformável. Antes, a liberdade da admissão do absurdo é o que o torna livre para mudar. São antes, as justificativas estruturais, de leis à cultura e educação que podem limitar seu verdadeiro potencial. É ele, o indíviduo, ele e somente ele quem pode determinar a essência da existência. Mas isso também não é absurdo?
Bibliografia:

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro, Guanabara, 1989

CAMUS, Albert. O  Estrangeiro.  Rio de Janeiro, Ed. Record, 2009

CAMUS, Albert. Estado de Sítio. São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1982

FANTE, John. 1933 foi um ano ruim. Porto Alegre, Ed. L&PM Pocket, 2011

HESSE, Herman, O lobo da Estepe. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2008

HOMERO, Odisséia: Rio de Janeiro, Ed. Ediouro, 2002

PAIVA, Rita. Consciência humana e absurdidade em Camus. Revista discurso No 33, 2003, pág. 153-172.

Texto do petiano Luiz Fernando Roriz (Luti) que, além de muito dedicado aos estudos, também tem tempo para a arte!!
Confira a obra dele no MySpace!!
www.myspace.com/lutieosderrotados

Do Outro Lado da Fumaça: Controvérsias e Ambigüidades na Guerra ao Terror

A data 11 de Setembro de 2011 ficou marcada na História Mundial devido ao choque de duas aeronaves nas duas torres do World Trade Center, localizado em Nova York. Atualmente, estão reconstruindo as duas torres que desabaram em uma grande nuvem de fumaça, ao lado do memorial feito em lembrança desse acontecimento, que acarretaria diversas conseqüências na Política estadunidense.

O “11 de Setembro” foi uma tragédia e emocionou pessoas em diferentes partes do mundo, com imagens de bombeiros entrando nos destroços, familiares chorando suas perdas, e políticos fazendo discursos sobre o quanto estava abalada a sociedade dos Estados Unidos. Entretanto, as conseqüências desse dia, que até hoje comove cidadãos estadunidenses – afetariam lugares muito mais distantes do que meramente a Estátua da Liberdade ou Wall Street.

Os ataques do 11 de Setembro trouxeram para a política de segurança estadunidense um renovado vigor. Se antes a opinião das partes do Governo estadunidense andava fragmentada em relação à segurança, em 2002 houve um esforço de compilação que resultou no National Security Stragegy, um documento escrito pelo National Security Council e que expunha a doutrina Bush, a qual se baseava no direito de auto-defesa pré-emptiva. Isso significava que os Estados Unidos poderiam atacar outro país, caso se sentisse ameaçado, ataque que iria constar como “auto-defesa”.

A invasão do Iraque foi um exemplo da prática desse conceito de auto-defesa pré-emptiva. Tropas estadunidenses invadiram o Iraque, mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, sobre a alegação da existência de armas de destruição em massa, armas essas que nunca foram encontradas.

No entanto, mais do que pretextos para intervir em outros países, o 11 de Setembro criou uma nova divisão do mundo. Se antes no Direito Internacional as nações eram divididas entre civilizadas e não-civilizadas, depois de Setembro de 2011 elas passaram a ser divididas entre democráticas e não-democratas, ocidentalistas e fundamentalistas, bem e mal, em que os EUA exerciam sua missão de salvar a América.

Todavia, o problema dessa divisão é que ela inclui não apenas os grupos terroristas, mas os civis que casualmente morrem nessas tais medidas “preventivas”, tais como a invasão do Iraque e a intervenção do Afeganistão. Mas do que tudo, ela ressurge um sentimento cívico nacionalista, de amor à pátria, que no entanto não deixa de ser excludente em relação a outras culturas [vide as políticas em relação aos árabes nos EUA após o 11 de Setembro].

Mais do que isso, cria-se um feitichismo à tragédia, que pode ser utilizado como forma de convencimento – em termos de discurso retórico – da população, levando a uma legitimação da violência  e da divisão do mundo como contra-medidas ao Terror. Terror esse relacionado a determinado grupo que se localiza “do outro lado”. Do lado contra o ocidente. Sim, morreram cerca de 2,8 mil pessoas no atentado ao World Trade Center.

No entanto, morreram um número maior de pessoas no Iraque, entre elas civis que nada tinham a ver com toda essa história. Da mesma forma, morreram pessoas durante as intervenções militares empreendidas pelos EUA, as ditaduras na América Latina apoiadas pela CIA, entre outros eventos relacionados à política dos EUA, assim como morrem centenas de milhares de pessoas devido à fome, em países anteriormente explorados economicamente pelos EUA.

A diferença é que essas pessoas não possuem seus nomes gravados em um memorial. A diferença é que essas pessoas são sequer lembradas.

Um texto da Petiana da Nayara

Referências Bibliográficas:

ANGHIE, Antony. The war on terror and Iraq in Historical perspective. Osgoode Hall Law Journal. Toronto, vol. 43, No. 1 & 2, 2005, p. 45-66

BONHAM, G. Matthew; HERADSTVEIT, Daniel; NAKANO, Michicko, SERGEEV, Victor M. Working Paper: How We Talk about the “War on Terrorism” Comparative Research on Japan, Russia, and the United States. [prepared for delivery at the 9th World Congress of Semiotics, to be held on 11–17 June 2007 at the University of Helsinki, and at International Semiotics Institute at Imatra] Oslo: Norwegian Institute of International Affairs;

BRUNNÉE, Jutta and TOOPE, Stephen J. The use of force: International law after Iraq. International and Comparative Law Quarterly. London. Vol 53. Nº 4, 2004, p. 785-806.

SOULEIMANOV, Emil – HORÁK, Slavomír. Islam, Islamist Extremism in the Caucasus and Central Asia: A Critical Assessment, in Ursel Schlichting (ed.), OSCE Yearbook 2006. Hamburg: Nomos Verlaggesellschaft 2007. Pp. 271-287;

TOWNSHEND, Charles. Terrorism: A Very Short Introduction. New York: Oxford University Press, 2011.