“Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”.
1933 foi um ano ruim, é o título de um interessante livro escrito por John Fante, que descreve a história do jovem e pobre garoto, Dominic Molise, em seu processo de questionamento do mundo, tentando justificá-lo através do amor e da religião. Em seu processo de diferenciação frente à uma sociedade uniforme, tentando desesperadamente encontrar em si algum talento (que no seu caso era jogar baseball), por menor que fosse. Dominic vive essa desventura durante o ano de 1933 e aposta tudo o que tinha (vendendo a única máquina de trabalho de seu pai em segredo) para juntar alguns dólares e tentar seguir a carreira de atleta arremessador em outra cidade. O livro termina com o amigo de Molise (que, diga-se de passagem, era peça fundamental para que a empreitada desse certo) abandonando-o, seu pai sem trabalho, a máquina valendo o dobro do que se vendeu e um beco sem saída para o jovem garoto que, buscando atingir seu sonho abandonou tudo o que o prendia a uma vida normal. Que absurdo! Pode-se dizer, que não há nada mais certo que isso, a vida é mesmo um absurdo! Que é o pressuposto da reflexão de hoje. Deixando de lado a tragédia de Dominic, atentemo-nos para outro autor, a saber, Albert Camus. Trataremos hoje de sua obra “O mito de Sísifo” e o absurdo que é a vida humana. Neste livro, Camus literalmente constrói e defende esta idéia. Basicamente seu pressuposto é o de que a vida não faz sentido algum e que os homens são fúteis por buscar desesperadamente algum sentido para viver. O mundo encontra-se desprovido de Deus e da eternidade, e principalmente não possui lógica alguma, seu determinante é o caos, a desordem, a falta de justificativa. Ao contrário do que se pode pensar não são apenas loucos e filósofos que chegam a esta conclusão, na verdade, quanto mais tempo se passa buscando um sentido, menos sentido faz esta busca. Na verdade é neste absurdo que ancora-se a religião, que nada mais é que a tentativa, desesperada (sem ofensa), de evidenciar uma justificativa para essa empreitada irracional terrena. Segundo Paiva (2003), “um mundo que podemos explicar, mesmo por viés das más razões, é suportável, mas num mundo privado de justificação o homem é estrangeiro, privado da esperança, condenado ao sofrimento” (p. 159). Bem, antes de tudo, até mesmo deste pressuposto, descrevamos a história trágica de Sísifo. Segundo nos conta Homero (2002), Sísifo foi um sagaz ser humano cuja trajetória em vida resumiu-se ao questionamento divino. Em sua experiência terrena, foi capaz de enganar pelo menos 3 divindades diversas. Primeiro enganou à Asopo exigindo água para sua cidade em troca de informações falsas sobre o rapto da filha do deus em questão, em seguida foi capaz de enganar a morte aprisionando-a em um colar, é claro que os deuses em função do aprisonamento da morte resolveram tomar a vida de Sísifo que, antes de morrer disse à sua mulher que não o enterrasse e jogasse seu corpo em praça pública. Ao acordar no Hades, Sísifo convence Hades a deixá-lo retornar para se vingar do desprezo de sua mulher, o deus do mundo inferior permite e assim que este volta a ver o mundo dos vivos, foge desesperadamente para longe da morte, assim conseguiu viver até idade anciã quando já encontrava-se preparado para morrer. Mas ao contrário de suas intenções Zeus não lhe deu a morte, antes, aplicou-lhe um castigo, deveria Sísifo carregar uma pedra gigantesca nas suas costas até o topo de uma montanha bem alta. Ao chegar no topo, a pedra rolaria até o pé da montanha e Sísifo teria de recomeçar este trabalho por toda a eternidade. E o que isso tem a ver com Camus? Bem, Camus vê em Sísifo nada mais nada menos que o héroi do absurdo, aquele indíviduo que reconhece a irracionalidade de sua sina, de sua vida, não obstante, continua executando sua tarefa diária. Contudo, não antecipemos as conclusões sem dizer antes outros dados de importância absurda! O primeiro questionamento trazido na obra de Camus é o seguinte, se a vida é um absurdo e a constatação da burrice e da estupidez de viver é mais comum do que se imagina porque o suicídio não é regra e sim exceção? Como um homem que constata o absurdo da vida pode continuar a viver? Para Camus, constatar o absurdo da vida não exige a anulação desta, antes exige revolta para com a mesma. O que isso quer dizer? Primeiro atentemo-nos para o que é exatamente absurdo. Não é nem o mundo nem o pensamento humano, o absurdo surge antes do esforço e da necessidade humana de entender um mundo que é incompreensível, o que se objetiva é mostrar impossível a redução da complexidade do mundo a um princípio racional, razoável e explicável. Para Camus, este é o momento da consciência adquirida. Cada um de nós deve, em algum momento, vislumbrar o conhecimento e chegar à conclusão de que não importa quão duro se trabalhe, estamos fadados a falhar no sentido de que mais cedo ou mais tarde morreremos sem compreendê-lo inteiramente. Logo, o absurdo não nasce do mundo per si ou do homem per si, mas da relação dos dois, suicidar-se seria anular uma das partes, anulando o absurdo, o que é absurdo, pois em uma lógica relacional, anular uma das partes (necessárias), é anular o todo (suficiente), anulando por sua vez o mundo e o resto da humanidade. “O absurdo depende tanto do homem como do mundo” (Camus, 1989 p 40). Em outras palavras, o não ser não pode ser, ou seja, suicidar-se e tornar-se o que não é, não é tornar-se feliz, porque isso seria ser, antes é tornar-se nada reduzindo tudo a este mesmo nada, o mundo, a humanidade e o absurdo, simplesmente as coisas não são, para aquele que não é. Para os que não se convenceram do absurdo da vida, menciono que Camus o procura demonstrar, através de uma lógica e três analogias, respectivamente, da tentativa do homem de justificar a vida e dar um sentido a ela sobre o amparo da esperança, dos planos, da vida após a morte, enfim. O fato é que quanto mais se espera o amanhã, mais próximos estamos da morte que é o não ser e isso torna a esperança uma lógica absurda. As analogias são respectivamente, a de Don Juan, que desesperadamente busca o amor e a beleza em tudo (o que é um absurdo), a do ator, que representa, em apenas duas horas de palco, uma vida, uma história inteira o que escancaria sua efêmeridade tornando um absurdo viver (visto que a morte é evidente), e a do guerreiro conquistador, que se vê convicto na glória, na eternidade, na imortalidade de seus feitos, (pensemos que tudo o que realizamos na vida não é tentar deixar algo para a posteridade?) o que é absurdo porque vivendo o que está por vir deixa-se de viver o que é real. Se ainda não foi possível se convencer do absurdo da vida (que é tentar dar a ela uma razão, uma lógica, uma justificativa), sugiro a leitura da obra, se não resolver, sugiro uma boa dose de reflexão existencial ao assistir o programa Fausto Silva num domingo bucólico e entristecido, ou a leitura do mundo como vontade e representação de Arthur Schoppenhauer. Enfim, já que a vida é o absurdo e o suicídio não resolve o problema do absurdo, (o suicídio erradica a consciência do absurdo sem deslindá-lo, e aqui é importante lembrar que o olhar de Camus ao suicida não é sociológico e estrutural, ao contrário, é individual. “Começar a pensar é começar a ser minado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos”, Camus, 1989, p.40), o que devemos fazer, por Deus!? Camus nos responde com um raciocínio fino e extremamente complexo, a saber, devemos fazer o óbvio: aceitar o absurdo. Contudo essa aceitação possui, pelo menos, duas consequências: a liberdade e a revolta. Sobre a 1a, não nos diz Camus sobre a liberdade em si, metafísica, mas a liberdade inerente a condição humana, aquela referente à ação do espírito, que é maximizada com o reconhecimento do absurdo. Ou seja, constatar que a vida não possui sentido, é estarmos livres da desesperada, dolorosa e terrívelmente satânica busca pelo sentido. O homem absurdo goza da liberdade no que se refere às regras comuns. Ah, meu saudoso Sr. Mersault, que ao matar um árabe é condenado à morte. Nada faz sentido para este rapaz, sua vida não é explicada por nenhuma fé, religião, ideologia, ciência, não tem nada em que se amparar. É na verdade o sr. Mersault um condenado? Eu prefiro vê-lo como livre, pode se fazer a si mesmo, sua vida não ancora-se nas leis que o obrigam a cumprir, no poder delegado a poucos, na desigualdade, na lógica intelectual, na moral, na verdade, nas exigências do Sr. Capital, porque tudo isto é baseado na justificação, logo tudo é uma fuga falha ao absurdo. Ao descobrir que a percepção do absurdo implica na liberdade absoluta, encontra paz (algo muito difícil de se encontrar). Tudo é permitido para aquela liberdade anárquica metafísica de Camus, “O que conta não é a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem”. Pensemos na vida moderna, trabalhadores em empregos fúteis e fábricas de escritórios, presos aos grilhões maléficos já citados, são como Sísifo sim, pois acordam todo dia às 6 para escalar a montanha, porém apenas aquele Sísifo é capaz de se aproximar de algo entendido como liberdade. Aquela interna, anárquica, que pauta solidamente certas correntes do pensamento político. Ele e somente ele pode determinar a essência da existência. Sobre a questão da revolta, é mister dizer que esta revolta não se concentra na raiva, na luta, na agressividade, no combate e no conflito, antes, é uma revolta porque se dá justamente no fato de que se a vida não tem sentido, só poderá ser vivida em sua absurdidade, sua tragicidade, e não anulada. Se revoltar contra essa lógica ilógica é torná-la certa, absoluta e grandiosa. Se revoltar não é desenhar estratégias de batalha que tem por objetivo manter a vida custe o que custar, “inversamente o absurdo da existência tem como correlato a opção pela alegria, felicidade e afirmação da vida” (Paiva, 2003, p. 163). A revolta de Sísifo se dá justamente em continuar carregando o pedregulho! E ainda mais! Em carregá-lo alegremente! A aceitação não é passividade, é a revolta da revolução permanente interna à alma de cada ser humano. “A vida será vivida melhor ainda, se não tiver sentido. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-la plenamente” (Camus, 1989,p.70). Por isso Sísifo é um herói, e por isso continua escalando a montanha, não vive sua vida da melhor forma, mas da forma mais intensa, procura sua realização em cada passo em cada coisa, vive intensamente cada respiração, não é uma questão de viver perfeitamente, e sim de viver mais! “Sísifo não veicula nenhuma esperança, mesmo assim, é feliz. Não porque ele tenha se resignado, mas exatamente por ter suas esperanças hauridas. Ao ser perpassado pela dor do absurdo, ele cresce em disponibilidade e pode investir no presente com toda a radicalidade que a atitude solicita” (Paiva, p.168). Sísifo pode constatar o quão terrível é seu destino (de carregar o rochedo gigante todos os dias), mas apesar de horrível, seu destino lhe pertence de forma inteira. Seu rochedo é a sua questão. Ao contemplar o tormento, fazemos calar todos os ídolos. Afinal, a felicidade é irmã do absurdo! Pensemos em Cervantes, dentre todas as mensagens contidas em Dom Quixote, talvez uma das mais relevantes seja o argumento de que ao considerarem-no louco, não era de fato desequilibrado, antes, o resto do mundo é que encontrava-se errado. E é justamente essa revolta que torna possível a primeira consequência, a liberdade, “assumir a absurdidade do mundo e optar pela vida instaura o propósito de viver o máximo possível, atingir o limite de uma existência limitada, o homem absurdo não canaliza suas energias para o eterno ou para o nada, mas para o possível” (Paiva,p.168). Se para Sócrates a vida só vale a pena pela reflexão, para Camus a vida só tem valor se esclarecida acerca de sua absurdidade. Com a revolta e a liberdade vemos que a saída para um possível drama humano se faz, não no sofrimento, mas na grandeza do inexorável percurso para a morte. Então o que dizer sobre o pobre garoto Molise, se não que é uma vítima da própria covardia humana, da estrutura e do horror individual de admitir o absurdo? Comete Dominic todos os erros possíveis, atendo-se ao amanhã (fazendo planos para se tornar um famoso jogador), justifica sua existência pelo seu talento, pelo seu amor por uma garota, pela sua crença em Deus e na Virgem Maria, nega o absurdo da escola, do estudo, do trabalho de pedreiro que seu pai deseja que siga, nega por medo, e ao viver sua vida mental, metafísica e ideal desperdiça qualquer possibilidade de real mudança de sua condição. Para terminar, não quis dizer aqui que, como Sísifo, a condição humana é irrevogável, não transformável. Antes, a liberdade da admissão do absurdo é o que o torna livre para mudar. São antes, as justificativas estruturais, de leis à cultura e educação que podem limitar seu verdadeiro potencial. É ele, o indíviduo, ele e somente ele quem pode determinar a essência da existência. Mas isso também não é absurdo?
Bibliografia:
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro, Guanabara, 1989
CAMUS, Albert. O Estrangeiro. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2009
CAMUS, Albert. Estado de Sítio. São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1982
FANTE, John. 1933 foi um ano ruim. Porto Alegre, Ed. L&PM Pocket, 2011
HESSE, Herman, O lobo da Estepe. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2008
HOMERO, Odisséia: Rio de Janeiro, Ed. Ediouro, 2002
PAIVA, Rita. Consciência humana e absurdidade em Camus. Revista discurso No 33, 2003, pág. 153-172.
Texto do petiano Luiz Fernando Roriz (Luti) que, além de muito dedicado aos estudos, também tem tempo para a arte!!
Confira a obra dele no MySpace!!
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