Condição Humana, Pertencimento e Individualidade

Segundo a filosofia de Hannah Arent, a condição humana transita entre espaços de igualdade (comunicação mútua, ancestralidade e gerações futuras) e espaços de diferença (onde se localizam a alteridade e a distinção). Neste sentido, embora Arendt seja uma filósofa política e talvez existencialista, e não fale tanto dos níveis privados e íntimos dos relacionamentos e das família nesta descrição, as categorias de ancestralidade e das futuras gerações em Hannah Arendt podem também descrever um nível de pertencimento familiar (e possivelmente cultural, embora os vínculos nesta dimensão social não sejam necessariamente tão fortes quanto nas famílias) que pode, talvez, nivelar-se à idéia de pertencimento sistêmico descrita pelo teólogo e terapeuta familiar Bert Hellinger.

Hellinger desenvolveu a idéia de que não somos exclusivamente individuais, e sim, antes de tudo, partes de uma alma coletiva, observando a sabedoria da cultura zulu e integrando esta perspectiva a vários sistemas interpretativos da psicologia e da teologia. No que se refere a uma visão de que somos mais coletivos do que individuais, algo semelhante é descrito também pelo sociólogo Émile Durkheim ao tratar de sentimentos de solidariedade mecânica, que são, segundo este autor, características de sociedades “primitivas”. Já as sociedades modernas de origem europeia, segundo Durkheim, caracterizam-se por sentimentos de pertencimento segundo solidariedade orgânica, na qual há maior senso de individualidade e os membros das sociedades sentem-se vinculados em redes, nas quais cada um desempenha um papel ou função, mas não estão automaticamente amalgamados aos demais membros do grupo ou sistema, e pertencem tanto por escolha quanto pelo tipo mais racional de coerção social de culturas modernas de origem europeia.

As áreas de diferença descritas por Arendt, por vez, buscam concretizar a máxima expressão de indivíduos únicos, e os permite em tese vivenciar a liberdade. E são justamente estas áreas de diferença que permitem a realização pessoal. Neste sentido, indivíduos não só existem, como precisam se expressar em suas autenticidades para dar sentido à vida.

Nas áreas de diferença descrita por Arendt, encontra-se também o princípio da alteridade no cenário de diversidade no qual o ser humano se relaciona com os outros e com o mundo. Segundo Arendt, o ser humano só se reconhece como tal em contato com o outro, “só existe a partir do outro”, criando-se assim a necessidade de distinção. Pela distinção, o ser humano expressa as diferenças e se torna singular, particular.

Integrar a perspectiva de individualidade a pertencimento sistêmico é um dos objetivos de minhas pesquisas que buscam, além de tentar contribuir de alguma forma para a teoria política, trazer algum tipo de alívio à vida coletiva das pessoas no presente pela compreensão de seus lugares neste mundo. A perspectiva das constelações familiares, nestas pesquisas, não nega a individualidade, mas a amplia apresentando uma circunscrição sistêmica familiar e possivelmente cultural na qual a individualidade de cada um se insere. Neste sentido, indivíduos humanos não são exclusivamente conscientes e autores racionais de suas próprias vidas, pois são guiados, majoritariamente, pelo sentimento de pertencimento aos seus sistemas familiares. E entre o inconsciente individual descrito por Freud (vinculado ao uma idéia de si oriunda dos pais) e o inconsciente coletivo descrito por Jung (vinculado a arquétipos gerais da humanidade), há o que Hellinger intitula inconsciente familiar sistêmico, ao qual cada indivíduo pertence e expressa, ainda que não tenha plena ou qualquer consciência disto.

Na visão de Hellinger, portanto, os seres humanos são primeiramente coletivos, e partir de seus lugares no sistema, podem expressar suas individualidades nos limites do que o sistema familiar permitir. Assim, o sistema familiar precede a existência pessoal singularizada e só permite que algo individual ou pessoal se manifeste se, e somente se, o indivíduo em questão estiver em ordem ou em paz com seus familiares e antepassados, agindo a partir do seu lugar, e não envolvido em emaranhados da família de origem. Todos estes pressupostos não podem ser explicados em um texto tão curto, mas para esclarecer um dos fundamentos da minha pesquisa sobre condição humana,  que é a constelação familiar e seus princípios norteadores, deve-se entender o que são, principalmente, o que Hellinger chama de ordens do amor, círculos de amor e ordens da ajuda. Tais fundamentos encontram-se nos livros As Ordens do Amor, Um Lugar para os Excluídos e As Ordens da Ajuda.

No que se refere à individualidade e à autoexpressão de cada um, uma vez partindo de seu lugar no mundo, em paz com os familiares, e retomando a visão de Arendt, pode-se dizer que a liberdade humana existe quando o indivíduo comunica a si próprio, e não apenas repete e reedita características de pessoas da família. Comunicar a si próprio significa estar conectado com a própria essência, e não vertendo características alheias, sejam elas políticas (e Arendt referia-se principalmente ao perigo do totalitarismo de anular a individualidade e a liberdade das pessoas pela homogeneização de sociedades inteiras na forma de massas teleguiadas por um regime opressor) ou familiares (o que Hellinger chama de representação, significando reviver scripts de vida de ancestrais ou membros da família de gerações anteriores).

Assim, em Arendt a soma da alteridade (relações humanas em um cenário rico em diversidade) ao princípio da distinção (que não corresponde a sentir-se superior aos demais, e sim a sentir-se particular em sua essência, com foco na autoexpressão de si mesmo e não na disputa com outros seres humanos) permite a existência da pluralidade de seres singulares e livres, capazes de viver harmonicamente.

A inserção de cada ser no mundo seria, portanto, realizada por palavras e atos autênticos, e este seria o momento de um “segundo nascimento” descrito por Arendt que transcende a existência física. É justamente este “segundo nascimento”, ou talvez o que Jung chamaria de processo de individuação.

Assim, se a teoria política e os processos de terapia e psicologia são basicamente sobre a paz e a liberdade, o direito de pertencer e de ser quem é, ou pelo menos da busca desses valores, a constelação familiar (ou o que é tecnicamente chamado de terapia sistêmica fenomenológica de Bert Hellinger) afirma que isso só é possível a partir do nosso lugar neste mundo e em nossas famílias, quando estamos em paz e em ordem com os membros dessas famílias de origem, e assim também nos alinhamos com nossos próprios propósitos de vida – que em harmonia com pai, mãe, antepassados e parentes próximos, pode se concretizar de forma tranqüila no processo de vida de cada ser humano.

Um texto da Prof. Tutora Paola Novaes Ramos.

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